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Grimes, a fada pop do ‘faça você mesmo’

Abraçada por Jay Z e queridinha da moda e das redes sociais, a cantora indie dá pistas sobre os novos rumos que a indústria musical deve seguir

Em um cenário futurista, um carro rosa sem teto ou portas corre pela rua conduzido por um grupo de jovens com roupas estranhas e cabelos coloridos. De repente, uma batida eletrônica conduz ao início da música, e surge a voz da cantora, alterada por computador. O clima é psicodélico. No clipe,a jovem de cabelo ruivo com as pontas azuis e roxas aparece em uma plataforma de metrô suja e vazia e, ao fim, em uma festa onde todos acabam ensanguentados.

As imagens fazem parte do clipe de Kill V. Maim, canção da cantora canadense Claire Boucher, que se apresenta ao mundo com seu alter ego Grimes. Lançado nesta semana, o vídeo ajuda a entender quem é essa artista e o motivo pelo qual ela vem recebendo tanta atenção da indústria musical. Afinal, a jovem de 27 anos cada vez mais dá pistas sobre o que a música pop se transformou, ou está em vias de se tornar, no século XXI.

Grimes costuma tingir os cabelos de cores como pink ou verde e se veste como quem não tem medo algum de se destacar, usando de ternos masculinos a sandálias da Adidas com meias descombinadas. Às vezes parece uma personagem de mangá. Em outras ocasiões brinca com grifes famosas. Ela já é uma queridinha do mundo da moda: apareceu em uma campanha do estilista Alexander Wang, passou a frequentar desfiles em Paris e seu estilo foi definido por Karl Lagerfeld, da Chanel, como “novo” – elogio máximo quando se trata de moda.

Assim como David Bowie, Madonna e, mais recentemente, Lady Gaga, Grimes faz mais que música: ela é o centro de um projeto artístico. Carrega, além disso, o “sotaque” de sua geração: é desbocada, engajada, e sente-se muito à vontade nas redes sociais.

O traço mais notável de Grimes é que ela vai passando do alternativo ao pop sem abrir mão da autossuficiência. A exemplo de Kill V. Maim, ela escreve, produz e grava as suas canções, assim como dirige seus vídeos e desenha a capa de seus álbuns. Não à toa, foi chamada pelo jornal americano The New York Times de “a sensação indie do D.I.Y”, em referência à sigla para “do it yourself”, ou “faça você mesmo”. “Eu quero ser a cara disso que eu estou construindo, eu quero ser a pessoa que constrói. Ninguém que vai tomar o controle além de mim”, diz ela em um documentário sobre a produção de seu último disco, Art Angels, lançado em novembro de 2015 e considerado um dos melhores álbuns do ano pela crítica especializada.

Há outro motivo pelo qual Grimes é a rainha do cenário independente: seu feminismo. A cantora denuncia com frequência o sexismo na indústria musical. Ela acredita que há homens demais comandando a carreira de artistas femininas. “Quase sempre uma artista mulher é veículo para uma voz masculinas. Alguns trabalhos muito bons saem disso, mas metade da população não está sendo ouvida de verdade”, disse ela à revista The New Yorker.

Por isso, Grimes prefere não envolver homens em seu processo criativo e decidiu ser a sua própria produtora. Ela conta que, no ano passado, aprendeu sozinha a lidar com uma bateria eletrônica para não ter de chamar um especialista. “Quando eu era adolescente, admirava Billy Corgan, Trent Reznor e Marilyn Manson porque não existiam mulheres com quem eu pudesse me identificar”, disse ela à revista americana Rolling Stone. Com isso, a canadense está se tornando uma espécie de ícone para a próxima geração de cantoras. No ano passado, ela lançou o coletivo Eerie Organization, em que financia o trabalho de outras artistas mulheres. O primeiro resultado do projeto foi o disco Natural Born Losers(2015), da cantora Nicole Dollanganger. “Eu me perguntou se as letras das cantoras pop seriam tanto sobre sexo e amor se não houvesse por trás um monte de caras produzindo”, disse a cantora.

Construindo uma estrela – Grimes passou a chamar mais a atenção de pessoas fora do mundo alternativo com o lançamento do disco Visions, em 2012. Segundo a cantora, ela produziu sozinha o álbum inteiro em um mês. Com a ajuda do GarageBand, um popular aplicativo da Apple que ajuda a criar músicas, ela escreveu as canções, produziu as batidas eletrônicas e tocou todos os instrumentos.

Em março daquele ano, Visions, um CD indie, ficou entre os 100 álbuns mais vendidos dos Estados Unidos na lista da Billboard. A principal faixa do disco é Oblivion e narra um episódio de assédio sexual. A música – dançante e ao mesmo tempo sinistra – foi descrita como “canção para uma festa em um castelo gótico”. O clipe da faixa já acumula mais de 21 milhões de visualizações no Youtube. E, em 2014, o Pitchfork, site americano especializado em música, classificou a faixa como a melhor canção lançada na década, até aquele momento.

Grimes acabou chamando a atenção do rapper americano Jay Z, que em 2013 a incluiu no seleto grupo de artistas, como Rihanna e Shakira, representados por sua empresa RocNation. Desde então, a canadense ganhou tração: amada pela crítica e requisitada pelos maiores festivais do mundo e pelo mundo da moda.

Jay Z, porém, não está em uma empreitada para transformar Grimes em uma nova versão de popstar. Uma situação narrada pela própria artista à Rolling Stone americana prova que o rapper não a vê no papel de diva do pop – ao menos não como são as divas atuais. Certa vez, Grimes apareceu em uma sessão de fotos para a imprensa sem ter depilado as axilas. Após seu time de relações públicas entrar em pânico, a equipe resolveu mandar as imagens para “Big Jay” aprovar ou não. Jay Z deixou que as fotos fossem divulgadas. “Ele é artista. Ele entende a gente”, disse a jovem cantora.

Futuro – O que Jay Z parece compreender é que as excentricidades de Grimes fazem dela uma artista preparada para enfrentar uma indústria musical que está mudando. Primeiro disco da cantora desde sua entrada para a RocNations, Art Angels, foi produzido de forma parecida com o álbum anterior. A canadense lançou o CD por uma gravadora pequena, a 4AD, e enfrentou boa parte das etapas do projeto em um estúdio montado na sua casa. Ela contou com ajuda externa – de um homem – somente para a mixagem das músicas. O escolhido foi Spike Stent, produtor de nomes como Madonna e U2.

Art Angels prova uma teoria que Grimes tem sobre si mesma: a de que ela faz parte de uma geração “pós-internet”, a qual teve livre acesso a downloads de músicas de todos os gêneros. Por isso, seu novo álbum tem faixas indies e outras prontas para serem tocadas em uma rádio pop, além de canções comparadas às de artistas tão diversos quanto o grupo country Dixie Chiks, a banda de rock pesado Korn ou o Rage Against the Machine, que toca rap-metal.

Grimes com frequência declara o seu amor pelo pop e por divas desse gênero, como Mariah Carey. Mas não é com elas que ela deseja se comparar. “O pop é apenas um gênero. Algumas das minhas músicas são influenciadas pelo pop, outras não. Tentar constantemente colocar um rótulo na música não faz sentido”, disse ela ao jornal britânico The Guardian. Para eliminar esses rótulos, a cantora diz ter passado um ano sem ouvir canções pop para gravar Art Angels. “Eu não quero parecer atual. Se eu soo atual, é porque eu criei o novo atual”.

Se Grimes não será a próxima Mariah Carey ou Rihanna, porque tantos olhares estão voltados para ela – e por que o interesse de Jay Z? Na opinião da cantora, a RocNation não a enxerga como uma fonte de fortuna, mas como uma possibilidade de diversificar os negócios. Na verdade, é muito mais do que isso. Grimes faz músicas que agradam públicos diferentes. Ela produz seus álbuns sozinha e em casa: ou seja, o processo sai barato. Além disso, sua presença na Internet – onde ela levanta bandeiras, critica a indústria musical e expõe suas fraquezas – está se tornando ainda maior que a sua música. Um tipo de comportamento que sua geração costuma recompensar.

“Eu construí uma estrela pop. Mas eu faço uso de mim mesma. Eu dirijo todos os vídeos, fiz a arte dos álbuns, e produzi todas as músicas. Eu criei uma marca, uma empresa, que é a Grimes, que é a minha vida, eu acho. Na verdade acho que a Lady Gaga fez isso primeiro. Mas foi D.I.Y, foi totalmente D.I.Y”, disse, ao canal Hunger TV, a sensação indie – ou seria pop? – do estilo “faça você mesmo”.

Fonte: Veja

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